Reflexão
acerca de uma realidade pastoral (critérios e modelos)
Nesta reflexão, usarei como base a realidade
pastoral da diocese do Porto.
Nesta diocese, na realidade que conheço, o modelo
de pastoral que vigora é o comunitário, em que a paróquia é entendida como uma
comunidade de comunidades. No entanto, este modelo pastoral parece não estar a
resultar pois nesta diocese assim como em tantas outras verifica-se a
descristianização da sociedade e constata-se também uma realidade pobre de vida
eclesial (doutrina, culto e testemunho).
A partir da leitura do Plano Diocesano de Pastoral
do Porto 2015/2020, podemos verificar que a diocese do Porto está consciente, desde
há alguns anos atrás, da necessidade de mudança ao nível da pastoral. Este
plano pastoral faz memória de acontecimentos como a celebração dos 50 anos do
Concílio Vaticano II e de textos como as “orientações diocesanas de pastoral”
publicadas em 1991 por D. Júlio Rebimbas, para dizer em seguida: “…Estes
acontecimentos e estes textos despertam em nós a exigência de sermos comunidade
missionária, Igreja em saída […] Dada a descristianização da nossa sociedade,
deparamos, com uma menor frequência na participação da vida sacramental.” Pg.
25Também Emilio Alberich no seu manual de catequética fundamental, referindo-se ao modelo atual de pastoral, que de um modo geral vigora, diz o seguinte: “não tem sentido ficar agarrados a esta pastoral «tradicional» ou de «mantimento»: impõe-se uma profunda revisão e conversão, para chegar a ser autenticamente evangelizadora.”
Desperta para esta necessidade de mudança, a diocese do Porto faz algumas propostas de mudança:
Importa
envolver e integrar na acção pastoral os movimentos vocacionados para a acção
cristã no mundo […] É preciso organizar a corresponsabilidade, a participação
estruturada do Povo de Deus, pela valorização, cada vez mais convicta, ampla e
decidida dos Conselhos Paroquiais de Pastoral. […] Os diversos secretariados
diocesanos, a quem compete a animação pastoral dos variados sectores
específicos, devem dar uma atenção privilegiada à comunhão, ao trabalho de
complementaridade e de coordenação entre todos. Pede-se-lhes uma auscultação da
realidade concreta, na esfera própria de cada um, assim como um contributo
especializado para uma renovada evangelização e um esforço permanente de actualização
teológico-pastoral. (pg.25 e 26)
Pela leitura das propostas referidas percebemos que
a diocese pretende mudar para um modelo pastoral evangelizador “gerador” de
cristãos autênticos.
Existem quatro sinais evangelizadores através dos
quais a Igreja cumpre a sua missão na história e aporta a sua contribuição
específica e insubstituível à realização do Reino de Deus:
- Diaconia: a comunidade cristã é chamada a
manifestar uma tal capacidade de entrega aos demais que faça credível o anúncio
evangélico do Deus de amor e do reino de amor;
- Koinonia: deve manifestar um novo modo de
conviver e partilhar, responde ao anseio de paz dos homens de todos os tempos;
- Martyría: este sinal deve brilhar no mundo como
anúncio libertador e chave de interpretação da vida e da história levando aos
homens a esperança cristã;
- Liturgia: responde à exigência de celebrar a vida
e de acolher e expressar no rito o dom da salvação.
A presença harmónica destes sinais, ou funções
eclesiais constitui um critério de discernimento da autenticidade cristã e
eclesial na ação pastoral.
Analisando o plano diocesano de pastoral para o
quinquénio 2015-2020, percebemos que os objectivos lá expostos vão de encontro
aos quatro sinais atrás referidos. Conforme podemos verificar no quadro abaixo:
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Sinais evangelizadores
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Objectivos do plano diocesano
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diaconia
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2.3. - “Envolver-se com obras e gestos, de modo a
acolher, compreender e encurtar as distâncias que nos separam dos outros,
tocando a carne sofredora de Cristo nos irmãos”
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koinonia
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2.2. - “Oferecer misericórdia, fruto de ter
experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva.”
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martyría
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2. -
“Assumir a vocação de discípulos missionários.”
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liturgia
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2.5. –
“Valorizar a dimensão festiva e bela da fé, como fonte de um renovado
impulso para se dar.”
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Deste modo, na medida em que se cumprirem estes objectivos
propostos também serão visíveis os sinais evangelizadores e consequentemente as
acções desenvolvidas serão verdadeiramente pastorais.
Existem também alguns critérios que nos ajudam a
perceber se uma determinada realidade é ou não uma acção pastoral, esses
critérios podem ser divididos em três grupos: o primeiro grupo está relacionado
com a continuação da missão de Cristo (critérios teândrico, sacramental e
conversão), o segundo com o Reino (historicidade, sinais dos tempos e
universalidade) e o terceiro com a presença e missão no mundo (diálogo,
incarnação e missão). É a presença em simultâneo destes três conjuntos de critérios
que nos permite considerar que uma acção é pastoral.
Como exemplo de análise de uma realidade pastoral específica,
vou referir-me ao que conheço melhor: a catequese. A catequese é um meio
através do qual se tenta continuar a missão de Cristo, no entanto, por vezes não
satisfaz alguns dos critérios referidos anteriormente. Dentro dos critérios que
por vezes não são satisfeitos, um deles é a atenção aos sinais dos tempos. O que
mostra a minha realidade concreta como catequista do 4º ano é que as crianças a
quem dou catequese são muito diferentes das crianças de há dez anos atrás, e constato
que apesar do guia e do catecismo serem relativamente recentes (2010) já não
tem uma linguagem actual, assim, para quem segue exclusivamente o guia e não
está atento a estes sinais fazendo algumas adaptações para tornar acessível e
cativante a mensagem, torna-se mais difícil passar a mensagem às crianças. Outro
dos critérios que por vezes não é satisfeito é o critério de missão; o
catequista é chamado a continuar a missão de Jesus, mas para isso é importante que
faça a experiência do encontro com Deus para que depois, através dos seus
gestos, continue a missão de Jesus. Concluo que, para que a catequese seja
verdadeiramente uma acção pastoral, é importante fazer a sua avaliação periódica,
de forma a estarmos atentos aos sinais dos tempos, pois a realidade está
constantemente a mudar.
Completo e rigoroso, como sempre.
ResponderEliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarConcordo com o Paulo, a tua reflexão demonstra claramente qual o objetivo de ação pastoral que o conselho de pastoral da diocese do Porto pretende. Bom trabalho!
ResponderEliminarConcordo com o que foi dito anteriormente, mesmo sem conhecer o Plano Pastoral da Diocese do Porto, o trabalho é muito elucidativo sobre a realidade pastoral, não só do Porto, mas também nas principais dificuldades que se verificam ao nível das outras dioceses. Bom trabalho!
ResponderEliminarSim...nota-se também que a Diocese do Porto tem um bom alicerce para a desenvolver ações Pastorais...
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