quinta-feira, 17 de dezembro de 2015


Reflexão acerca de uma realidade pastoral (critérios e modelos)

Nesta reflexão, usarei como base a realidade pastoral da diocese do Porto.
Nesta diocese, na realidade que conheço, o modelo de pastoral que vigora é o comunitário, em que a paróquia é entendida como uma comunidade de comunidades. No entanto, este modelo pastoral parece não estar a resultar pois nesta diocese assim como em tantas outras verifica-se a descristianização da sociedade e constata-se também uma realidade pobre de vida eclesial (doutrina, culto e testemunho).
        A partir da leitura do Plano Diocesano de Pastoral do Porto 2015/2020, podemos verificar que a diocese do Porto está consciente, desde há alguns anos atrás, da necessidade de mudança ao nível da pastoral. Este plano pastoral faz memória de acontecimentos como a celebração dos 50 anos do Concílio Vaticano II e de textos como as “orientações diocesanas de pastoral” publicadas em 1991 por D. Júlio Rebimbas, para dizer em seguida: “…Estes acontecimentos e estes textos despertam em nós a exigência de sermos comunidade missionária, Igreja em saída […] Dada a descristianização da nossa sociedade, deparamos, com uma menor frequência na participação da vida sacramental.” Pg. 25
       Também Emilio Alberich no seu manual de catequética fundamental, referindo-se ao modelo atual de pastoral, que de um modo geral vigora, diz o seguinte: “não tem sentido ficar agarrados a esta pastoral «tradicional» ou de «mantimento»: impõe-se uma profunda revisão e conversão, para chegar a ser autenticamente evangelizadora.”
       Desperta para esta necessidade de mudança, a diocese do Porto faz algumas propostas de mudança:
Importa envolver e integrar na acção pastoral os movimentos vocacionados para a acção cristã no mundo […] É preciso organizar a corresponsabilidade, a participação estruturada do Povo de Deus, pela valorização, cada vez mais convicta, ampla e decidida dos Conselhos Paroquiais de Pastoral. […] Os diversos secretariados diocesanos, a quem compete a animação pastoral dos variados sectores específicos, devem dar uma atenção privilegiada à comunhão, ao trabalho de complementaridade e de coordenação entre todos. Pede-se-lhes uma auscultação da realidade concreta, na esfera própria de cada um, assim como um contributo especializado para uma renovada evangelização e um esforço permanente de actualização teológico-pastoral. (pg.25 e 26)

Pela leitura das propostas referidas percebemos que a diocese pretende mudar para um modelo pastoral evangelizador “gerador” de cristãos autênticos.
Existem quatro sinais evangelizadores através dos quais a Igreja cumpre a sua missão na história e aporta a sua contribuição específica e insubstituível à realização do Reino de Deus:
- Diaconia: a comunidade cristã é chamada a manifestar uma tal capacidade de entrega aos demais que faça credível o anúncio evangélico do Deus de amor e do reino de amor;
- Koinonia: deve manifestar um novo modo de conviver e partilhar, responde ao anseio de paz dos homens de todos os tempos;
- Martyría: este sinal deve brilhar no mundo como anúncio libertador e chave de interpretação da vida e da história levando aos homens a esperança cristã;
- Liturgia: responde à exigência de celebrar a vida e de acolher e expressar no rito o dom da salvação.
A presença harmónica destes sinais, ou funções eclesiais constitui um critério de discernimento da autenticidade cristã e eclesial na ação pastoral.
Analisando o plano diocesano de pastoral para o quinquénio 2015-2020, percebemos que os objectivos lá expostos vão de encontro aos quatro sinais atrás referidos. Conforme podemos verificar no quadro abaixo:

Sinais evangelizadores
Objectivos do plano diocesano
diaconia
2.3. - “Envolver-se com obras e gestos, de modo a acolher, compreender e encurtar as distâncias que nos separam dos outros, tocando a carne sofredora de Cristo nos irmãos”
koinonia
2.2. - “Oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva.”
martyría
 2. - “Assumir a vocação de discípulos missionários.”
liturgia
2.5. –  “Valorizar a dimensão festiva e bela da fé, como fonte de um renovado impulso para se dar.”

Deste modo, na medida em que se cumprirem estes objectivos propostos também serão visíveis os sinais evangelizadores e consequentemente as acções desenvolvidas serão verdadeiramente pastorais.
Existem também alguns critérios que nos ajudam a perceber se uma determinada realidade é ou não uma acção pastoral, esses critérios podem ser divididos em três grupos: o primeiro grupo está relacionado com a continuação da missão de Cristo (critérios teândrico, sacramental e conversão), o segundo com o Reino (historicidade, sinais dos tempos e universalidade) e o terceiro com a presença e missão no mundo (diálogo, incarnação e missão). É a presença em simultâneo destes três conjuntos de critérios que nos permite considerar que uma acção é pastoral.

Como exemplo de análise de uma realidade pastoral específica, vou referir-me ao que conheço melhor: a catequese. A catequese é um meio através do qual se tenta continuar a missão de Cristo, no entanto, por vezes não satisfaz alguns dos critérios referidos anteriormente. Dentro dos critérios que por vezes não são satisfeitos, um deles é a atenção aos sinais dos tempos. O que mostra a minha realidade concreta como catequista do 4º ano é que as crianças a quem dou catequese são muito diferentes das crianças de há dez anos atrás, e constato que apesar do guia e do catecismo serem relativamente recentes (2010) já não tem uma linguagem actual, assim, para quem segue exclusivamente o guia e não está atento a estes sinais fazendo algumas adaptações para tornar acessível e cativante a mensagem, torna-se mais difícil passar a mensagem às crianças. Outro dos critérios que por vezes não é satisfeito é o critério de missão; o catequista é chamado a continuar a missão de Jesus, mas para isso é importante que faça a experiência do encontro com Deus para que depois, através dos seus gestos, continue a missão de Jesus. Concluo que, para que a catequese seja verdadeiramente uma acção pastoral, é importante fazer a sua avaliação periódica, de forma a estarmos atentos aos sinais dos tempos, pois a realidade está constantemente a mudar.

5 comentários:

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  2. Concordo com o Paulo, a tua reflexão demonstra claramente qual o objetivo de ação pastoral que o conselho de pastoral da diocese do Porto pretende. Bom trabalho!

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  3. Concordo com o que foi dito anteriormente, mesmo sem conhecer o Plano Pastoral da Diocese do Porto, o trabalho é muito elucidativo sobre a realidade pastoral, não só do Porto, mas também nas principais dificuldades que se verificam ao nível das outras dioceses. Bom trabalho!

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  4. Sim...nota-se também que a Diocese do Porto tem um bom alicerce para a desenvolver ações Pastorais...

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